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Poizé!

terça-feira, julho 13, 2010 12:08:00 PM


por Carlos Tautz -
12.7.10 enviado pelo Grozny Arruda, RJ
Aldo, o Código e a cereja

É natural a estranheza causada pela devoção de um deputado formalmente comunista à causa dos grandes produtores de commodities e seu projeto de demolição do Código Florestal. Mas, por esquisito que pareça, a súbita dedicação de Aldo Rebelo (PCdoB-SP) ao tema ambiental, que tradicionalmente lhe é tão próximo quanto os anéis de Saturno, tem, sim, explicação.

Por trás e por baixo da caricatura que é um comunista defendendo latifundiários está a mais recente modernização conservadora das estruturas produtivas no Brasil, como consequência da conjuntura internacional.

Os maiores agentes econômicos do País, em aliança estreita com o Estado nacional, perceberam que há, em pequenos buracos da hegemonia global dos EUA e na disparada da demanda chinesa, espaço para reafirmar a história do Brasil como plataforma de exportação de matérias primas e bens de consumo com baixo valor agregado, esses sinais do nosso desenvolvimento atrasado.

Feita a constatação, por sinal correta do ponto de vista metodológico, passam-se às necessárias articulações de poder e criação de bases materiais para confirmar o Brasil no papel já histórico de produtor e exportador de intensivos de natureza e energia, na forma de carnes, grãos e minérios. São essas as bases materiais da projeção do poder brasileiro sobre os mercados do Sul global, principalmente África, Oriente Médio e Ásia, em especial China.

Essa conjuntura internacional rebate internamente ao Brasil e surge a necessidade de os agentes econômicos desenvolverem musculatura e base territorial para atender à crescente demanda do Sul global, dos EUA e da Europa.

Nesse sentido, a proposta de Aldo Rebelo, de perdoar crimes ambientais de desmatamento e reduzir a reserva legal de mata em todos os biomas brasileiros é uma espécie de cereja de um bolo com muito mais recheio do que supõe a nossa vã ideologia.

Na prática, o deputado expressa o interesse de garantir o território necessário à contínua expansão do negócio agrícola para exportação, exatamente como se faz desde 1500, quando as naus lusitanas vieram coletar pau brasil para a metrópole Lisboa. Deste ângulo, o relatório rebeliano, aprovado na quarta, 6, por ampla maioria em Comissão Especial da Câmara dos Deputados, faz sentido.

Nesse contexto, sobressai a caricatura dos argumentos manufaturados por Aldo, que sempre recorre ao argumento da defesa da “soberania brasileira” para sustentar seus interesses. No caso, o argumento é ajustado para justificar o que Aldo chama de disputa de produtores brasileiros pelos mercados protegidos dos EUA e da Europa.

Esquece, entretanto, o nobre parlamentar de que 100% da produção brasileira de alimentos é intermediada por quatro ou cinco grupos internacionais de especuladores de comida, como a Bunge e a Cargill, todos de origem estadunidense.

O relatório de Aldo ainda vai ao Senado, mas daí mesmo é que não se deve esperar grandes mudanças de curso. A casa superior se caracteriza por exprimir talvez com mais veemência do que a Câmara os interesses centrais do modelo de desenvolvimento aplicado ao Brasil. A não ser que a rejeição ao novo Código mobilize tanto quanto o conseguiu o projeto moralizador da Ficha Limpa.

Carlos Tautz é jornalista
http://oglobo.globo.com/pais/noblat/

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