Factorama: http://factorama2.blogspot.com Publicação de divulgação científica em meio eletrônico.
Factorama

Atualizado diariamente - www.factorama.com.br - ISSN: 1808-818X

Um manifesto na defesa da comida

quinta-feira, fevereiro 19, 2009 11:45:00 AM


O livro de Michel Pollan, "Em defesa da comida: um manifesto", retoma uma estrutura no título que lembra a utilizada nos manifestos na defesa dos direitos dos trabalhadores, certamente o mais significativo foi o Manifesto do Partido Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels (1857). O conteúdo do livro de Pollan, não trata de uma simples questão culinária, ele discute com coerência a questão na qual se transformou, hoje, a comida na nossa sociedade ocidental.
Sem dúvidas, se Pollan tivesse lido com atenção a obra de Marx e Engels teria citado a seguinte frase: “Pela exploração do mercado mundial, a burguesia deu um caráter cosmopolita à produção e ao consumo de todos os países”, aliás, essa é tese central do seu livro, desenvolvida principalmente na parte II titulada "A dieta ocidental e as doenças da civilização", vejamos os detalhes da obra de Pollan.
Em primeiro lugar afirmaria que o livro no seu conjunto levanta um profundo debate ancorado na ETICA, uma vez que reconhece a especificidade humana a partir do seu ambiente sócio-cultural-ambiental.
Pollan, como outros, constata uma particularidade biológica e cultural que se reconhece nos processos digestivos formados em diferentes grupos culturais. Este é justamente um traço distintivo do debate em torno de uma ética social, que reconhece de modo agudo essa especificidade e ao mesmo tempo vislumbra um HOMEM.
Na evolução social do grupo, Pollan, retomando clássicos da antropologia como, por exemplo, a obra de Weston Price (Nutrition and Physical Degeneration) discute entre outros as enzimas do leite e absorção do amido, bem como os ômega-3 e ômega-6 nas dietas dos esquimós, porém, o que mais analisa é como, nos últimos 40 anos tudo se transformou com a introdução na nossa linguagem da palavra nutricionismo.
Aqui novamente Pollan deveria ter lido o manifesto de Marx e Engels. Por quê? Pergunta-se o leitor, pois bem, o Manifesto é uma síntese da história de um processo no qual o nutricionismo está inserido, formando parte indissolúvel do mercado dos alimentos.
Nessa análise, Pollan, apresenta o prato principal, para ser comido frio, saboreado lentamente, até constatar que a destruição dos elementos naturais, que compõem os alimentos, consiste na extração de alguns poucos nutrientes, de fácil industrialização, para reconstituir outros que deveríamos de fato denominar de imitações.
Imitações que são prejudiciais aos organismos humanos, originados através de centenas de anos de evolução biologia e cultural.
Esses novos produtos sintetizados, que nossos avôs não reconheceriam como alimento, diz Pollan, estão na base de nossas doenças.
Atenção, que ele distingue, com perspicácia, a sentença comum que diz essas são doenças de nosso tempo, com o das doenças provocadas por nossa alimentação em nosso tempo. Sutil nessa reflexão, o autor afirma, que não é a vida rápida que vivemos, mas o que comemos e como comemos para viver a principal causa dos nossos problemas de saúde.
O tema do livro pode parecer distante para muitos, porém é de profunda atualidade. Ruy Castro, em artigo na Folha de São Paulo de quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009, justamente trás a tona uma parte do debate de Pollan, quando discute o retorno do ovo ao cardápio, depois que os mesmos cientistas que o exilaram, anunciam sua volta com bombos e trombetas.
De fato, os cientistas que debatem com autoridade a ciência do comer e dos alimentos, os nutricionistas, nada sabem para afirmar com certeza nada.
A questão é de moda e de interesses comerciais, fundamentados numa pseudo ciência reducionista, que somente constata nutrientes nos alimentos, os quais são impostos como elementos dissociados do conjunto ao qual pertencem ou com os quais interagem.
Lembra das embalagens de alimentos que destacam enriquecida com vitaminas A e B, pois bem esse é o jogo da indústria, que faz uma tábua rasa de nossa cultura alimentar e sustenta teorias que somente beneficiam o comércio de dietas, sem possuir certeza de nada.
Aqui, novamente a reflexão de Pollan está plenamente demonstrada, resgatando com força a necessidade de redimensionar culturalmente, de modo ético, nossa alimentação.
Considerando, para tanto a saúde do solo, da água, das plantas e do trabalhador que produz o alimento. Em sínteses falamos de uma cadeia, diz Pollan, p. 160, "integrada por um conjunto de relações sociais, ecológicas, chegando à terra e, no fim, às pessoas".

Para finalizar aqui estão as regras de Pollan:
1.- Não coma nada que sua bisavó não reconhecesse como comida. 2.- Evite produtos alimentícios que contenham ingredientes desconhecidos; impronunciáveis, que passem de cinco ou que incluam Xarope de milho com alto teor de frutose. 3.-Evite produtos que contenham alegações quanto a benefícios para a saúde. 4.- Compre nas prateleiras periféricas do supermercado e mantenha-se longe do meio. 5.- Fuja do supermercado sempre que possível. 6.- Coma sobretudo vegetais, especialmente folhas. 7.- Coma alimentos bem cultivados de solos saudáveis. 8.- Coma com ceticismo os alimentos não tradicionais. 9 Não procure o elemento mágico da dieta tradicional. 10.- Pague mais, coma menos. 11.- Coma refeições. 12.- Cozinhe e, se puder, plante uma horta.
Bibliografia: Michel Pollan Em defesa da comida: um manifesto. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2008.


Copyright © 2003 - 2010 Factorama. Os artigos contidos nesta revista eletrônica são de responsabilidade de seus autores. A reprodução do conteúdo, total ou parcial é permitida, desde que citado o Autor e a fonte, Factorama http://factorama2.blogspot.com. Publicação de divulgação científica em meio eletrônico. Destinada ao debate político, econômico, ambiental e territorial, com atualização diária. Ano 6, Primeira edição em julho de 2003. BLOG é abreviação de weblog. Vem de web, que significa internet, e log, de conectar-se à rede. Qualquer publicação freqüente de informações pode ser considerado um blog.

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Página Principal - Arquivo Morto do período de 12/2003 até 03/2006
 

A motosserra está de volta!!!

Motosserra

Copyright © 2011 JUGV


Arquivos FACTORAMA



Site Feed Site Feed

Add to Google