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A velada guerra ambiental

sexta-feira, maio 16, 2008 4:32:00 PM

Longe dos grandes centros urbanos, em especial dos centros urbanos de São Paulo e do Rio de Janeiro, travam-se as maiores batalhas com relação à proteção ambiental das reservas florestais brasileiras. Em rincões como a região da “Terra do Meio”, no sul do Pará, nas cidades do norte do Mato Grosso e em Rondônia, ações predatórias como a derrubada, todos os dias, de dezenas a centenas de hectares de matas, denigrem a imagem do Estado Brasileiro perante os olhos do mundo. Muitos proprietários de terras e empresas madeireiras dessas áreas literalmente ignoram e ridicularizam as normas e leis ambientais instituídas. Pela razão mais simples: o Estado Brasileiro não possui, no momento, estrutura logística para implantar um processo de fiscalização que seja no mínimo razoável.

Diante desse quadro que é desolador, pois é uma clara exposição da fraqueza do Brasil em executar sua política de planejamento ambiental, a situação atual dos assuntos estratégicos nacionais com relação à proteção de suas florestas é humilhante. E é por causa desse grave período que se configura que a ex-ministra Marina Silva pediu demissão. Por mais que maquiasse sua saída, pediu demissão porque viu a sua impotência diante de um sistema ambiental que possui bem elaboradas leis ambientais, mas de uma fraqueza operacional preocupante. Seus esforços devem ser creditados, ela realmente lutou pela proteção da floresta, sendo um dos nomes brasileiros mais conhecidos no cenário ambiental internacional. Todavia, um nome não tem o poder de parar o processo de desmatamento das áreas amazônicas, assim como leis não cumpridas não passam de normas escritas em vão em um pedaço de papel.

Sai Marina, entra Carlos Minc. Carlos Minc Baumfeld, participou nas décadas de 1960 e 1970 dos movimentos estudantis contra ditadura, foi exilado em 1969 e retornou ao Brasil pela Lei da Anistia em 1979. Junto com Fernando Gabeira e Alfredo Sirkis, fundou o Partido Verde. Estava antes atuando como Secretário de Meio Ambiente do Estado do Rio de Janeiro. Agora, como o mais novo ministro do Meio Ambiente, terá, com certeza, o maior de seus desafios: pensar e planejar condições para que o processo de fiscalização das áreas florestais brasileiras seja mais eficiente. Ele sabe da dureza da missão, tendo dito em entrevistas e textos de jornal que entra no cargo com toda a cautela e temor, mesmo porque o próprio Minc afirmou em entrevista para a BBC Brasil que “foi obrigado” e de que “não era um convite, era intimação”, devido à insistência do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral e do presidente Lula.

No fundo, Minc não queria essa “cruz” para carregar, mas aceitou devido a insistência do próprio presidente. Meio Ambiente, de fato, está virando um tema muito incômodo, em um país que não têm condições logísticas e humanas de proteger suas florestas e que cada vez mais se encontra sobre os holofotes do cenário político internacional.

Como o novo ministro irá melhorar o funcionamento do IBAMA, reestruturar suas ações logísticas e protestar e impedir o avanço da frente colonizadora agrícola sobre a Amazônia em plena época de valorização do preço dos alimentos? O próprio governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, afirmou em texto publicado pela Reuters em 29 de abril que a própria ocupação da Amazônia poderia ser uma solução contra o aumento nos preços de gêneros essenciais como o arroz. Para piorar as tendências do cenário ambiental futuro, o próprio governo Lula prioriza acima de tudo o Plano de Aceleração do Crescimento e o aumento da produção de biocombustíveis, que se por um lado apresenta como um viés ecológico para a redução do porcentual de gases dos veículos, por outro se apresenta através de um viés profundamente econômico. Uma forte hipótese que se configura é de que os próprios biocombustíveis podem ser um fator de influência para a diminuição da área de produção de alimentos, de elevação dos preços dos alimentos, de fomentação da expansão agrícola sobre as áreas amazônicas e de origem, no fim, de mais desmatamento.

Enfim, o novo ministro, terá desafios hercúleos em seu ministério, e assim como Marina, terá de enfrentá-los, desafiando homens poderosos com interesses megalomaníacos de riqueza cujos meios de ação não raramente são mesquinhos, quando não perigosos. Esses adversários podem, por sua vez, não estar a milhares de quilômetros de distância, mas na sala ao lado, oferecendo um cafezinho. Essa pressão e tensão certamente seguiram Marina e seguirão Minc. Sem dúvida essa é a velada Guerra Ambiental Brasileira.


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