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Memória e aprendizagem

sábado, março 22, 2008 8:52:00 PM

Texto de Rui Batista, ex-docente da Universidade de Comibra, colaborador do Blog Rerum Natura, Portugal.
Obrigada, Rui!
O papel da memória nas aprendizagens escolares

Rui Baptista
“- V. Ex.ª tem boa memória, sr. Maia?
- Tenho uma razoável memória.
- Inapreciável bem de que goza!
Eça (“Os Maias”)


Em Portugal, está agendada para este mês “A Semana do Cérebro”. É esta uma matéria que me é particularmente grata e que, por isso, despoletou em mim a determinação em tentar atenuar a má memória de alunos do tempo da nossa escolaridade que, sem perceberem patavina da matéria estudada, papagueavam nos exames orais, ou escarrapachavam no papel das provas escritas a matéria dos livros e sebentas, “ipsis verbis”. Na gíria académica, os chamados marrões.

Quiçá por esse facto generalizou-se o princípio de que a memória pode andar arredada da inteligência, conceito abstracto, que abarca uma panóplia imensa de “aptidões” para as ciências, para as humanidades, para as belas-artes, para os “skill’s” motores, inerentes à prática desportiva, etc. Vem a propósito falar de António Damásio e dos seus trabalhos com ênfase no estudo da inteligência emocional. Estudo, aliás, que mereceu a atenção, há quase três décadas, a David Krech, doutorado pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, onde viria a atingir a cátedra (“Cérebro e Comportamento”, “Salvat Editora do Brasil, S.L., Rio de Janeiro, 1979, p. 84), de que transcrevo parte que respeita à inteligência emocional:

“Acreditava-se que havia uma distinção radical entre o comportamento racional e o comportamento emocional. No entanto, os modernos estudos sobre o cérebro demonstram que esta dicotomia carece completamente de significado. Quando falamos de cérebro temos de especificar se se trata de todo o cérebro ou apenas do córtex cerebral, pois há toda outra parte do cérebro, a parte mais antiga (sob o ponto de vista de desenvolvimento das espécies) que é a parte mais intimamente ligada com as emoções“.

Com a modéstia que caracteriza os cientistas, à pergunta “em que situação se encontram actualmente as pesquisas no campo da neurofisiologia?”, responde de um forma metafórica muito sugestiva: “A neurofisiologia encontra-se num sótão escuro procurando um gato escuro, sem ter a certeza que ele ali está. Seu único indício são leves ruídos que parecem miados” (ibid, pp. 87,88).

Apesar das surpreendentes descobertas que a tomografia por emissão de positrões (TEP) veio trazer ao desbravar dos segredos insondáveis de uma “caixa negra” (o cérebro ), receio bem que as indagações de um filósofo, matemático e físico, Blaise Pascal (1623-1662) tardem em encontrar uma resposta científica: “Que quimera é o homem? Que novidade, que monstro, que caos, que prodígio. Juiz de todas as coisas, verme imbecil, cloaca de incerteza e de erro, glória enojo do Universo. Quem deslindará esta embrulhada?”

Todas as formas de inteligência (ou aptidões), elencadas no 2.º § do texto, fazem parte do nosso código genético, através das localizações corticais com específicas funções hoje bem estudadas, das respectivas associações entre si, do contributo das substâncias químicas (os chamados neurotransmissores), enfim, de todo o corpo, condição sintetizada de uma forma magistral pelo psiquiatra alemão Ernest Krestchemer (1888-1964) : “O homem pensa com o corpo todo”. Devido à sua plasticidade, o cérebro se exercitado através de uma “ginástica” apropriada pode melhorar, até a um determinado limiar, a sua “performance”. Em condições patológicas, como, por exemplo, nos acidentes vasculares cerebrais (AVC), a acção vicariante das zonas de associação corticais serve de campo de manobra para a reabilitação funcional destes doentes.

Para melhor se compreender a complexidade anatómica e funcional do cérebro, nada melhor do que nos tem para dizer Jean-Pierre Changeux, professor de “Comunicações Celulares”, no Collège de France, e membro da Academia de Ciências: "Existirão de 10 elevado a 14 a 10 elevado a 16 sinapses no córtex cerebral do homem; se as contássemos a mil por segundo, levaríamos entre 3.000 a 30.000 anos a contá-las todas, trabalho verdadeiramente sobre-humano” (“O homem neuronal”, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1985).

Nos fenómenos cerebrais entra em jogo o importante papel da memória no nosso comportamento diário e na aquisição de novas aprendizagens escolares que neurofisiologistas prevêem ser comparticipada por professores, psicólogos, neurologistas e bioquímicos, falando-se já de uma neurobioquímieducação(David Krech). A memória vai sendo perdida com a idade (daí o interesse em exercitá-la ainda mesmo em idades avançadas), assumindo-se como uma verdadeira patologia na Doença de Alzheimer, que se caracteriza pela atrofia do córtex cerebral por perda neuronal. Nesta doença, a falta de memória faz-se sentir de uma maneira dramática e sem remissão como que a vingar-se do pouco valor que lhe foi dada por um corpo jovem, vigoroso e cheio de saúde.

Para a fisiologia, “o fundamento da memória reside nas mudanças eléctricas que se produzem no cérebro quando se recorda alguma coisa “.Lamentavelmente, o ensino da nossa modernidade tem subalternizado, ou mesmo descurado, o papel importantíssimo da memória na aquisição das diferentes formas de aprendizagem das crianças, como sejam, por exemplo, a tabuada e o cálculo mental, actividades substituídas por rudimentares maquinetas de calcular.

A memória, no nosso dia-a-dia, é uma verdadeira base de dados ou biblioteca para a inteligência e suas características funcionais: o pensamento e o raciocínio. A inteligência depende de uma associação de ideias, pois como nos diz M.L.Abercrombie, professor universitário que se dedicou ao estudo dos processos de percepção e raciocínio, “nunca nos encontramos perante um acto de percepção com a mente inteiramente em branco, pois estamos sempre em estado de preparação ou de expectativa, devido a experiências passadas.” Ora, ficamos a dever aos “sulcos” que a memória vai deixando no cérebro (os chamados engramas) essa capacidade tanto maior quanto maior for a sua exercitação.

Estas umas pequenas migalhas de um apaixonante e complexo estudo com a intenção de chamar a atenção dos educadores para o importante papel da memória tão maltratado actualmente no processo ensino/aprendizagem das crianças e dos jovens das nossas escolas, como se fosse um anátema ou mesmo uma praga a erradicar. Ora, os erros cometidos no ensino pagam-se caro e com juros de mora!

Ex-docente da Universidade de Coimbra.

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