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Argumento do documentário “Branco, Índio Branco”

terça-feira, março 25, 2008 10:00:00 PM

O documentário etnográfico “BRANCO, ÍNDIO BRANCO” objetiva apresentar as visões de mundo de um grupo de estudantes universitários indígenas e os multiplos diálogos dessa experiência coletiva, inédita, de reconstrução de uma aldéia urbana com situações de multiculturalismo e respeito mútuo entre povos Xokleng, Guarani, Kaingáng, na qual também brancos e "índios de verdade" e não fóg habitam ciclicamente.
O registo in loco, aldeia urbana ou centro cultural, sala de aulas, aldéia indígena e as linguas dessas visões de mundo que nesses territórios de imagens, sons e significados dialogam, formam os princípios norteadores do documentário.
Nesses territórios emerge um triplo papel do índio, ora é visto como índio pelos colegas de aula, ora é visto como universitário branco pelos índios da aldeia, ora ele se percebe como um índio, porém “sem língua”.
No diálogo intercultural construído cotidianamente se encontram imagens e reflexos, mediados por sinais e símbolos de uma cultura ocidental, que abre as portas, que invade e também destrói as línguas autóctones, fato que tem sido definido como a base da perda de identidade cultural dos povos indígenas. Certamente alguns podem sobreviver de forma individual, porém o grupo não mais lhes aporta significado social e estrutura.
Assim, os aspectos imateriais da cultura dos povos indígenas desaparecem inexoravelmente. Em 2008 estaremos no oitavo vestibular dos Povos Indígenas do Paraná, no qual são oferecidas seis vagas suplementares nos cursos de graduação em cada uma das seis universidades públicas estaduais, às quais concorrem exclusivamente os integrantes das comunidades indígenas do Estado. Este sistema de vagas suplementares existe no Paraná desde 2002. Sendo, dentro deste processo que conhecemos a Silvana, Rosilda, Izane, Thaynara, Osiel, Desnis, Joelma, José Roberto e Tatiane, índios dos povos Xokleng, Guarani, Kaingáng. Sabemos, diz Silvana, do povo Guarani e moradora da aldeia Laranjinha, que a universidade é um lugar no qual as possibilidades do bom conhecimento são concretas, e que desse território estranho dependem as melhorias e autonomia do grupo da aldeia índia, em particular as relacionadas com a saúde e educação. Porém, poucas vezes os conhecimentos indígenas a respeito de saúde e natureza são valorizados na universidade, exceto quando apresentamos seminários, nesses momentos a “curiosidade” dos colegas e dos professores aparece. Agora, nossa língua e conhecimentos culturais nunca são considerados. De certa forma, existe uma exclusão social e cultural dissimulada, que potencializa a deterioração, desaparecimento e destruição do nosso patrimônio cultural, conclui Silvana. Dentro desse contexto argumenta Thaynara, Kaingáng da aldeia São Gerônimo, existe a necessidade de conscientização, especialmente entre as novas gerações de indígenas que pretendem ingressar na universidade, da importância da língua autóctone e das práticas culturais do povo. Nessa mesma línea de análise, Osiel que é do povo Xokleng da aldeia Apucaraninha, resgata que a experiência do grupo de estudantes pode contribuir a repensar as estratégias e fortalecer a comunidade, já que entrar na universidade implica num distanciamento da cultura indígena. No entanto, essa ruptura não pode provocar o desligamento com a matriz cultural, da qual a sua identidade como pessoa se origina. Se considerarmos que o patrimônio cultural imaterial é integrado pelas práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas e que ele se transmite de geração em geração, sendo também constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, certamente esse novo ambiente da universidade, predominantemente branco e de fala portuguesa, pode não somente mudar a história do grupo, mas também a sua visão do universo e de si mesmos. Por tanto, o projeto do retorno à comunidade originária, não se apresenta somente como um desafio quanto à obtenção do título, mas também quanto à recepção pelo grupo que mora na aldeia indígena. No território da aula os colegas, relata Silvana, “nem sabe o que está falando de nós” e Osiel, lembra uma vez que fora dito por um colega que “Osiel, você é índio fashion”, e que colegas de aulas brincaram, afirmando que “era índio modernizado porque uso roupas.” Assim, estar em aulas implica, segundo Osiel, em ter que se adaptar com o ambiente, vestir como eles, além de ficar longe de família, não entender nada do que os professores falam. Denis, que é do povo Guarani, reconhece que também é muito difícil ser fóg (branco em língua Kaingáng) porque somos índios, porém a cada dia a nossa língua fica restrita á casa, e quando os índios da aldeia estão aqui, eles nos chamam de fóg, de brancos, porque não falamos em todos os lugares a nossa língua. Inclusive, as nossas crianças vão à escola e eles não querem mais falar a própria língua, preferem o português e assim “vamos perdendo a cultura de falar, isso é parte do custo de vir para a universidade”, destaca Rosilda. Os filhos de Silvana, já não desejam mais ter um conhecimento na própria língua, uma vez que eles devem lidar todos os dias com a idéia, divulgada na escola branca, de que índio não tem capacidade de aprender. Elas, as crianças, preferem aprender o português para serem iguais aos brancos, conclui Silvana.
A convivência de 3 povos indígenas que são os Xokleng, Guarani e Kaingáng acontece nas seis casas da Associação Indiginista –ASSINDI. Silvana e Denis destacam que o local “não é visto como reserva, aqui é um centro cultural indígena no qual temos uma proximidade com os nossos costumes indígenas e de todos estes povos”. Aqui podemos falar ocê, podemos ser mais nos mesmos, porque lá fora, na universidade, a gente luta pra falar igual aos brancos. Aqui praticamos nossas musica, danças, artesanato, a língua e um pouco os costumes da aldeia, além de apresentar para as pessoas que visitam a gente nossa cultura. Assim, podemos manter o vínculo com o nosso povo, principalmente quando realizamos as apresentação culturais de dança e canto. Neste documentário se manifesta em particular as tradições e expressões orais, incluindo o idioma como veículo do patrimônio cultural imaterial, as expressões artísticas, os conhecimentos e práticas relacionados à natureza e as técnicas artesanais tradicionais. Assim, pretendemos contribuir na revitalização do patrimônio cultural imaterial através da documentação e valorização da transmissão da experiência de transição de um novo rito de passagem, entre o universo indígena da aldeia, o da aldeia do Centro Cultural da ASSINDI e esse território que é a universidade.
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