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Aprendendo com o erro alheio

segunda-feira, fevereiro 25, 2008 11:47:00 AM

Diversos projetos de desfavelização já foram experimentados em vários países do mundo. No auge dos 30 gloriosos, o pensamento modernista pretendia que a transformação do espaço bastaria para salvar o ser humano do "subdesenvolvimento". No Brasil, os três séculos de escravidão e a favelização gerada pela nao inclusao dos libertados pela Lei Áurea poderiam ser rapidamente sanados em grandes edifícios como o premiado Complexo Pedregulho.
No Missouri, EUA, eles ergueram o Complexo Pruit-Igoe (veja vídeo), também premiado como exemplo de qualidade, seguindo estritamente os princípios dos CIAM - Congresso Internacional de Arquitetura Moderna, com 2870 apartamentos.
Esta pretensão tecnicista do urbanismo parece uma ramificação do neo-darwinismo herdado da da sociologia da escola de Chicago, que influenciou a escola norte-americana de arquitetura, dos arranha-céus em caixas de vidro, anônimas, uniformizadoras da individualidade. Se, para Wilson, a liberdade humana é determinada pelo gène, para os urbanistas neo-darwinistas o desenvolvimento humano é determinado por eles mesmos e por seus projetos.
É contra esta pretensão que Charles Jencks viu na implosão do complexo Pruit-Igoe, a prova de que a visão modernista do ser humano é equivocada. O equívoco já havia sido constatado no Complexo Pedregulho, onde a população foi transferida para um maravilhoso conjunto de edifícios habitacionais, equipados com creche, escola, ginásio de esportes, lavanderia comunitária, parques, jardins, etc. Mesmo sendo menor e muito melhor desenhado que o Pruit-Igoe, o Complexo Pedregulho não funcionou. Os moradores não sabiam como usar os apartamentos, as áreas comuns, os jardins,... e o sonho de transformação social pelo espaço virou um pesadelo. Abandonado à própria sorte, o complexo de Pedregulho se transformou numa favela vertical. Hoje, 50 anos depois da inauguração, tenta-se restaurá-lo.
O complexo Pruit-Igoe repete a mesma história, com um detalhe, se tornou um símbolo do equívoco de considerar o espaço como única variável determinante do desenvolvimento humano e sua implosão em 1970 foi considerada por Jencks como a implosão do modernismo na arquitetura. O enorme conjunto de edifícios para onde foram relocadas familias pobres, em pouco tempo, se tornou inabitável, perigoso, com índices de doenças fisicas, mentais e sociais muito maiores do que os de onde estas familias estavam anteriormente. Grande parte dos moradores acabaram abandonando o conjunto e voltaram para os barracos de onde foram relocados.
A relocação de comunidades para áreas tecnicamente mais salubres, geralmente implica numa baixa das condiçoes de saúde e da qualidade de vida desta população, porque nesta relocação não se considera os laços afetivos de entre-ajuda entre os indivíduos, a coesão da comunidade, ou a relação com o espaço, como demontra Leonard Duhl desde os anos 60. Um projeto de desfavelização, ofertado como um "presente", sem a participação ativa dos principais interessados, sem seu envolvimento engajado na realização da obra, no fim se mostra como uma armadilha tanto para a comunidade relocada, quanto para o poder público.
A experiência destes complexos tem muito a ensinar contra a pretensão tecnicista dos nossos projetos de desfavelização. Se o espaço é apenas a cristalização das nossas relaçoes sociais, então, sem um projeto de cidadania participativa que resgate os indivíduos da marginalidade, nenhum projeto de desfavelização terá sucesso. Focalizando apenas a ordem espacial, sem se preocupar com a desigualdade na ordem social, o Projeto Santa Felicidade está condenado a repetir o fiasco do Pruit-Igoe e do Pedregulho.

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